08/11/2017 - 14:24

Família de Camilla Abreu pede ato com “todos vestindo branco”

O manifesto acontece hoje em frente ao Quartel da PM

Autor: Claryanna Alves

Atos públicos contra o feminicídio estão sendo realizados esta semana. Os atos lembram os casos de feminicídios que repercutiram recentemente na mídia, como os de Camilla Abreu e Iarla Barbosa, ambas assassinadas por seus companheiros. Esses atos também fazem menção a tantos outros casos que infelizmente acontecem no dia-a-dia em todo o país.

Camilla Abreu, 21 anos, foi assassinada na madrugada da última quinta-feira (26) pelo namorado, o capitão da Polícia Militar Allisson Watson, 37 anos. Seu corpo foi encontrado em um matagal no povoado Mucuim. Iarla Barbosa, 25 anos, foi assassinada em junho deste ano pelo namorado, o então tenente do Exército, José Ricardo, 23 anos, com dois tiros no rosto. A irmã de Iarla, Ilana, e uma amiga também foram atingidas pelos disparos, mas sobreviveram.

Na tarde de ontem (7), a Comissão da Mulher Advogada e de Apoio à Vítima de Violência da OAB-PI convidou as famílias das vítimas de feminicídio e a sociedade civil em geral para debater sobre a proteção feminina diante do aumento dos crimes violentos no Piauí.

A tia de Camilla Abreu, Geane Abreu, conta que essas manifestações são para não deixar os casos caírem no esquecimento e buscar justiça o quanto antes. “Participamos do ato na OAB e outro em frente ao Karnak através de um convite da família da Iarla. Não podemos deixar cair no esquecimento como acontecem com muitos outros”, conta.

A família de Camilla convida toda Teresina para participar do Ato que acontece hoje (8), a partir das 17h, em frente ao Comando da Polícia Militar, ao lado da Maternidade Evangelina Rosa. “Vamos também em frente ao Comando Geral da PM pedir a expulsão do Allison da PM para que seja julgado na Justiça comum. Peço que as pessoas participem do ato e vão todos de branco. Será uma manifestação pacífica e teremos um momento de oração”, disse Geane.

O irmão de Camila, Diego Abreu, diz que a família tem recebido muito apoio da população. As pessoas estão sensibilizadas com o caso e que estão ajudando na busca por justiça. “Criaram um grupo no Facebook: ‘Justiça por Camilla Abreu’. Ele tem mais de nove mil membros. Agradecemos a Polícia Militar e Civil pelo acompanhamento e também a imprensa que tem apoiado a gente”, comenta Diego. “Nós tememos que nada seja feito, mas acreditamos que a justiça será feita. Ficamos com um pouco de receio por conta de outros casos em que nada foi feito, mas acreditamos”, completa a tia.

“Esse crime acabou com a gente”, relata o avô de Camilla

Ainda muito abalados, os familiares da jovem estudante dizem parecer viver um pesadelo. Uma vida de uma pessoa querida foi tirada no susto, nenhum deles estava preparado para lidar com a perda de alguém tão querido.

O senhor Carlitos Abreu, avô de Camilla, que a criou como se fosse filha, diz não conseguir mais dormir direito e que a cada instante lembra de momentos vividos com a neta, da alegria que era estar com ela e do cuidado que tinham um com o outro.

“Fico às vezes até 2h da manhã pensando nisso tudo, na falta que ela está fazendo. Não tenho conseguido dormir direito. Ela vivia comigo, ficava comigo o dia todo, almoçávamos juntos, sempre perguntando como cada um estava até pelo celular. Lembro que dia 23, chamei ela para almoçar comigo aqui perto e depois do almoço, quando fui pagar a conta, ela chegou me abraçando por trás e ficou andando junto comigo. Éramos muito apegados, tínhamos muito carinho com ela. Hoje não gosto quando entram no quarto dela, não quero que mexam em nada. Isso tudo foi muito brutal, não podemos sequer fazer um velório. Sou um morto-vivo. Ando por aí sem saber o que fazer. O que é que eu vou fazer?”, questiona o avô.

A dor da perda está nos olhos de Carlitos. O avô não consegue falar da neta que criou como sendo sua própria filha sem se emocionar, sem chorar. Cada gesto, cada pensamento dele faz lembrar algum momento que passou com Camilla. A vontade de que algo seja feito na justiça não substitui a falta que ela faz na vida dele e de sua família.

“Nós temos de buscar justiça, infelizmente não teremos mais a Camilla de volta. Ela era uma pessoa muito amorosa, apegada a todo mundo aqui, muito querida”, conta Geane. 

A busca incansável para desvendar o caso

Tanto o avô como o tio de Camilla são policiais militares. Eles iniciaram as buscas e as investigações enquanto procuravam apoio da polícia local. Inicialmente teriam encontrado algumas dificuldades por conta da falta de estrutura em alguns campos da segurança pública.

“Fomos em busca da polícia, mas sabemos que nem toda a estrutura é aparelhada e preparada. Mas um policial se prontificou e nos ajudou. O secretário de Segurança colocou todo o aparato a nossa disposição. Talvez se fossem outras pessoas sem o preparo e conhecimento, teria demorado mais para chegar a uma solução”, relata Carlitos.

A família reclama da tentativa de justificar o ato cometido por Allison como um problema psicológico. “Ele tem estudo, passou por um concurso e só com quase 40 veio apresentar problema psicológico? Isso deveria justificar o que aconteceu? E esse juiz que concedeu uma liminar para esse monstro entrar na PM? São muitas situações que têm de ser pensadas”, explica Geane.