20/03/2017 - 10:28

Profissão de detetive agora é regulamentada e movimenta mercado

O serviço é, no entanto, coisa séria e movimenta um grande mercado

Autor: Alline Vasconcelos

Faz parte do imaginário popular que o detetive é aquela pessoa que utiliza casaco xadrez e tem como principal ferramenta de trabalho a lupa, um traje típico dos desenhos e filmes. O serviço é, no entanto, coisa séria e movimenta um grande mercado.

Um detalhe que chama atenção e que passa despercebido é o nome da profissão. Para alguns, o termo detetive e investigador são utilizados como sinônimo, porém há muita diferença entre os dois. O detetive vem de "detectare" (descobrir, detectar, em Latim), ou seja, qualquer um pode ser detetive, inclusive um policial militar, pois ele detecta um fato, se coloca em conhecimento da Justiça e aí entra o trabalho do investigador para levar a fundo a investigação. O detetive particular até pode, mas não tem condições de elaborar um laudo, um relatório, por exemplo.

No último dia 15 de março, o Plenário do Senado aprovou a regulamentação da profissão de detetive (PLC 106/2014), que era reconhecida apenas por uma portaria do Ministério do Trabalho. Segundo o relator da proposta, senador Humberto Costa (PT–PE), a partir de então haverá limites para a atuação desses profissionais.

Consta na medida que o profissional não poderá possuir condenação penal e deverá ter um curso de formação específico. Ainda segundo o projeto, de autoria do atual ministro do Trabalho e ex-deputado Ronaldo Nogueira (PTB-RS), o detetive investigará suspeitas de infração administrativa ou descumprimento contratual; de conduta lesiva à saúde, integridade física; de desconfiança de sócios ou empregados e até de violação de obrigações trabalhistas. Também poderão apurar casos relacionados a questões familiares, conjugais e de paternidade, além de desaparecimento e localização de pessoa ou animal.

Atuando como detetive em Teresina há 25 anos, Lira Queiroz avalia a regulamentação como positiva. “Achei muito importante, é um reconhecimento do nosso trabalho, esperávamos por isso há quatro anos e mesmo sendo um grande passo, a gente precisa de mais, como por exemplo, um conselho que fiscalize a profissão, mas de toda forma estamos bem entusiasmados com a conquista”, comenta.

Casos extraconjugais e espionagem empresarial lideram a demanda

O detetive Lira Queiroz disse ainda que, até hoje, em sua rotina de trabalho, 80% da procura de seus serviços é para desvendar casos extraconjugais. “Ainda é a parte dominante de procura, o que mudou hoje é que antes eram mulheres que desconfiavam dos maridos, agora é o contrário, são os homens que estão nos procurando porque estão desconfiados de suas mulheres”.

O detetive aponta ainda que nesses casos é mais difícil comprovar a traição por parte da mulher do que por parte do homem. “A mulher articula mais, ela pensa em todos os detalhes e por isso a gente leva mais tempo até conseguir. O homem, não. Ele trai a esposa no motel mais próximo de casa”, enfatiza.

Mas nem só de casos de traição entre maridos e esposas vive o detetive. Lira comenta que a procura por questões empresariais também é grande. “Tem muitas empresas que pedem espionagem de outras empresas, ou empresários que estão desconfiados de seus funcionários, questões de documentos, desvio de verbas, essas coisas”, afirma.

Lira aponta que a internet e as redes sociais são grandes aliadas do seu trabalho. “Facilita bastante, tem muita gente que se expõe nas redes sociais, deixa escapar um detalhe e a gente só precisa de um gancho para desvendar uma situação”.

Sobre os casos que mais chamaram sua atenção nessas duas décadas e meia de trabalho, Lira destaca o caso do apresentador Luciano Hulk, quando esteve em Teresina para gravar um quadro com uma musicista que recebeu anonimamente uma doação de 10 violinos.

“Eu encontrei a pessoa, mas ele não quis ter a sua identidade revelada, aí eu repassei para a equipe que me contratou e ele estava no seu direito, só que o meu trabalho foi feito com sucesso”.

Se para o detetive descobrir traições são impactantes, para quem já contratou os serviços do profissional. A servidora pública Maria (nome fictício a pedido da fonte) recorreu a este serviço há cerca de oito anos porque desconfiava de traição por parte de seu marido, que foi comprovada pelo detetive do caso.

“Na época, eu desconfiava que ele estava me traindo porque o telefone celular dele só vivia desligado ou no silencioso quando ele estava em casa. Ele também dizia que tinha viagens a trabalho, mas eu descobria que ela mentira, foi aí que uma amiga me sugeriu contratar um detetive para ter certeza, e mesmo com 90% de chances de ser verdade, no fundo eu ainda tinha a esperança de ser mentira, porém o detetive me disse que descobriu e perguntou se eu queria dar o flagrante, eu aceitei e na época foi uma confusão que envolveu toda família. Passamos um tempo separados, mas resolvemos reatar após uns meses, de lá para cá não tive mais indícios de traição por parte dele e espero não ter mais”, esclarece.