02/08/2017 - 15:48

Rodrigo Maia, o homem entre as posições de aliado e potencial substituto de Temer

Maia preside nesta quarta-feira a sessão que vota para dar continuidade, ou não, à contra Temer

Rodrigo Maia é primeiro na linha sucessória para a Presidência da República (GETTY IMAGES)

Primeiro na linha sucessória para a Presidência da República, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), se equilibra na ambígua posição de aliado do governo à frente da Casa - e substituto automático de Michel Temer caso ele seja afastado pela denúncia por corrupção passiva.

Maia preside nesta quarta-feira a sessão que vota para dar continuidade, ou não, à primeira denúncia por crime comum feita a um presidente em exercício no Brasil, pelo escândalo da JBS. Se aprovada mais de 2/3 dos deputados (342), a denúncia volta ao STF, que pode abrir ação penal. Neste caso, Temer será afastado da presidência por 180 dias - e Maia assume a liderança do país.

O Congresso volta do recesso após semanas de especulação de que Maia estaria tendo conversas para compor um eventual governo. O clima de desconfiança levou aliados a marcar um jantar entre Temer e Maia para acalmar os ânimos.

Um dos frutos da discórdia foi a tensão entre Maia e o presidente Temer na disputa por dez deputados que querem sair do PSB. Temer reagiu ao movimento do grupo de migrar para o DEM de Rodrigo Maia, que tem se fortalecido, e buscou atraí-los para o PMDB - mas depois voltou atrás.

Diante do debate sobre um eventual governo de Rodrigo Maia, aliados do deputado ressaltam sua "fidelidade" ao presidente Temer.

"Ele se mostrou muito leal e equilibrado nesse episódio do presidente (Temer). Se fosse um oportunista, teria trabalhado por sua derrubada, mas trabalhou por sua manutenção", diz o deputado José Carlos Aleluia (DEM), amigo próximo de Maia.

Um dia antes da votação, Maia recebeu para um café da manhã o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, os líderes dos partidos da base aliada do governo, senadores e deputados para uma conversa sobre a agenda econômica, com vista para o Lago Paranoá. A pauta?

"É retomar a pauta", diz Aleluia. "Na votação, esperamos virar a página. Aconteça o que acontecer, vamos aprovar as reformas", diz o deputado.

Congresso vota nesta quarta-feira denúncia contra o presidente Michel Temer (GETTY IMAGES)

'Fiel e conciliador' versus 'antipático e sem sal'

Maia afirmou recentemente, em entrevista ao jornalista Roberto D'Ávila, da GloboNews, que seu papel é "presidir a Câmara" e que não haverá, de sua parte, "nenhum movimento para prejudicar o presidente".

Ele admitiu que os boatos teriam levado a uma bronca da mãe. "Você não vai conspirar!", ela disse em uma mensagem de texto. "Não, mãe, você me ensinou que eu tenho que ser leal, e assim eu sou!", ele falou, reproduzindo o diálogo - e acrescentando que mostrou a mensagem ao presidente Temer.

Maia vem ressaltando, entretanto, que sua posição como presidente da Câmara é de árbitro do jogo, e não de deputado aliado - motivo pelo qual estaria buscando estabelecer uma distância do governo.

O deputado é descrito por aliados como tímido, fechado, sério, bom ouvinte, fiel aos compromissos que assume, conciliador.

Já os críticos o veem como antipático, sem carisma, "sem sal" e sem credenciais para uma eventual Presidência, e o apelidam de "líder de governo" pelo frequente, embora ultimamente fragilizado, alinhamento com a gestão Temer.

Desde que assumiu a presidência da Câmara, teve papel decisivo na aprovação de projetos estratégicos para a gestão Temer, como o teto de gastos do setor público, a terceirização e a reforma trabalhista.

Em um dos momentos polêmicos de sua gestão, a Câmara impôs profundas mudanças às propostas contra corrupção apresentadas pelo Ministério Público Federal e avalizadas por dois milhões de eleitores. Das dez medidas originais, quatro foram mantidas, e com alterações.

Maia é um dos políticos na lista do ministro do STF Luiz Edson Fachin, alvo de inquéritos sobre suspeita de corrupção e lavagem de dinheiro na Lava Jato. Testemunhos de executivos da Odebrecht indicam que ele teria recebido cerca de R$ 1 milhão em três anos eleitorais. Nas planilhas de propina da empresa, ele seria o "Botafogo" - referência ao time para o qual torce desde pequeno.

Outra investigação apura a troca de vantagens indevidas com a OAS. Quando os inquéritos foram autorizados, Maia disse que as citações dos delatores eram falsas e que as investigações seriam arquivadas.

O deputado tem conhecidas posturas conservadoras. É contra o casamento homoafetivo e o aborto. Na economia, defende políticas liberais e a agenda do mercado, mantendo a pauta de reformas como prioridade de sua gestão.

"Hoje o Rodrigo é o 'senhor reformas'. As reformas são depositadas em suas mãos porque, sem ele, não vai sair nada", diz o deputado José Carlos Aleluia.

Cesar Maia, pai de Rodrigo, tem influência sobre destino político do filho (ANTONIO SCORZA/GETTY IMAGES)

'Brasileiro nato', por um fio

Rodrigo Felinto Ibarra Epitácio Maia tem 46 anos e nasceu em Santiago, no Chile, em 1970. Ele é filho de Cesar Maia, político que foi prefeito do Rio durante três mandatos. Na época da ditadura, Maia foi exilado no Chile e conheceu sua mulher, a chilena Mariangeles Ibarra Maia. O casal teve gêmeos - Rodrigo e a irmã Daniela Maia - e registrou-os no consulado brasileiro.

Graças a este gesto, Rodrigo Maia é considerado brasileiro nato - caso contrário, não poderia nem sonhar em ser presidente. Mas, na época, a intenção não foi política, diz Cesar Maia. "Eu nunca pensei nisso", afirma o vereador à BBC Brasil, justificando a iniciativa pelo fato de as raízes com o Brasil serem fortes.

Cesar Maia começou a carreira política com o apadrinhamento do ex-governador do Rio Leonel Brizola, fundador do PDT.

Rodrigo Maia cresceu nesse meio. Ainda menino, acompanhava reuniões de Brizola com secretários e deputados de madrugada. Na adolescência, pisou no Congresso pela primeira vez com o pai, deputado constituinte, para acompanhar as discussões da Constituição de 1988.

Questionado se o filho foi educado para a política, Cesar diz apenas que o criou "nos valores da família". "Minha atuação política seria uma referência espontânea, mas nunca a usei como doutrina", afirma ele, hoje vereador no Rio.

Já o deputado e amigo baiano José Carlos Aleluia (DEM) afirma que Maia teve uma educação espartana, e cita o método de educação conhecido como "mãe-tigre" - que impõe regras rígidas e críticas ao desempenho dos filhos - como parâmetro de comparação. A mãe de Maia, diz Aleluia, sempre foi uma presença "forte", e o pai, "muito preparado e estudioso". "Ele herdou um pouco de cada. Quem segue aos seus, não degenera", afirma.

Na ideologia, porém, Rodrigo não fez o percurso do pai, que começou a carreira militando na esquerda. "O Cesar veio da malha brizolista e com os anos transitou para a linha conservadora, resolveu ocupar o lugar da direita. O Rodrigo não, ele já se tornou uma figura pública nessa linha, junto a grupos empresariais, defensor do capitalismo de mercado", diz o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ).

Nas palavras de Aleluia, Maia é um "antipopulista militante convicto". "Nós comungamos a ideia de que o populismo é a grande ameaça à democracia, não é mais o comunismo ou o fascismo. Ele mantém as mesmas características seja na direita americana ou na esquerda latino-americana", diz o deputado.

Do mercado financeiro para o governo estadual

Maia cresceu sob a proteção do condomínio de elite na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. Frequentou o tradicional Colégio Santo Agostinho, que tem uma unidade instalada dentro do mesmo condomínio. No passado, teve que conviver com o apelido de Fofão, por causa das bochechas redondas.

Sua carreira profissional se iniciou no mercado financeiro. Trabalhou nos bancos BMG e Icatu e começou o curso de economia na Universidade Candido Mendes - mas abandonou o curso, nunca tendo concluído o ensino superior.

O filho de Cesar Maia estreou na política como secretário de governo do Rio, durante a gestão Luiz Paulo Conde (1997-2000), com apenas 26 anos. Dois anos depois, foi eleito deputado federal pela primeira vez, em 1998.

"Ele chega muito acanhado, um garoto tímido", lembra Aleluia, que o conheceu nesta época.

Seria o primeiro de cinco mandatos, inicialmente pelo PFL, partido que Maia liderou na Câmara e depois presidiu. Em 2007, a sigla se transformou no Democratas, e Maia esteve à frente de sua refundação.

Especula-se que Rodrigo Maia estaria montando governo contra o atual de Temer (GETTY IMAGES)

'Cavalinho passa arreado'

Maia nunca teve desempenho significativo nas urnas. Em 2012, candidatou-se a prefeito do Rio ao lado de outra herdeira política - Clarissa Garotinho, filha do ex-governador Anthony Garotinho. A chapa surpreendeu por unir filhos de antigos desafetos e conquistou apenas 3% dos votos, 95 mil no total.

Em 2014, Maia se reelegeu deputado com o pior desempenho de sua carreira, com 53 mil votos - o 29º deputado mais votado no Estado do Rio.

"Ele é um político de laboratório", opina Chico Alencar, parte da oposição no Congresso. "Não tem inserção social. Sua formação política não foi no movimento vivo na sociedade. Ele sempre foi o filho do Cesar. Até pouco tempo atrás, era o mini Maia. Por incrível que pareça, chegou à presidente da Câmara. Talvez ele mesmo se espante com o poder que adquiriu."

O deputado diz que as circunstâncias sempre ajudaram Maia a galgar novas posições em Brasília.

"O cavalinho passa arreado na frente dele em várias vezes da vida - é só montar", considera Alencar.

União de clãs políticos

O casamento de Rodrigo Maia também foi um episódio político. Em 2005, Maia se casou com Patrícia Vasconcellos, enteada do ex-governador do Rio Wellington Moreira Franco (PMDB) - atual ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência.

A cerimônia foi marcada pela presença de então presidenciáveis do PSDB: Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra.

Mas foi ofuscada por protestos e pancadaria do lado fora, com gritos de "oligarquia!" e cartazes com a frase "Não procriem".

Maia e Patrícia estão juntos até hoje. O deputado tem quatro filhos, sendo dois de relacionamentos anteriores, e o quinto está a caminho - Patrícia está grávida novamente. Ele usa uma foto dos filhos como seu retrato no aplicativo de mensagens WhatsApp.

"Ele é muito família", diz José Carlos Aleluia. "Não conte com ele para coisa de bandalha, não. Tomar uma, ele toma, mas baderna ele não faz. Essa coisa de orgia, não conta com ele, não. Ninguém vai pegar ele (no flagra) por aí, não. Porque os políticos são fracos nesse campo. Ele é certinho mesmo", diz o amigo.

O cientista político Maurício Santoro, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), diz que o fato de Maia ter nascido e se casado em berços políticos é indissociável de sua trajetória pública.

"Ele fez uma carreira na tradição de família, como é típico na política brasileira. Ele se apresenta como herdeiro do pai. Hoje tem o padrasto da esposa em uma posição-chave em Brasília, e está costurando uma aliança importante com o governo federal", considera Santoro.

Para o analista, Maia não autuou de maneira oportunista para tentar ocupar a Presidência da República porque possivelmente poderá obter mais benefícios se for fiel, e esperar.

"Por isso que ele não foi para o pescoço do Temer, que tem muito a oferecer para ele, como, por exemplo, apoio para cargos no Rio no futuro", argumenta.

Maia foi eleito presidente da Câmara para um mandato-tampão após a prisão de Cunha, em julho de 2016 (JOSÉ CRUZ/AGÊNCIA BRASIL)

'Lugar certo na hora certa'

Maia foi eleito presidente da Câmara para um mandato-tampão após a prisão de Cunha, em julho de 2016, prometendo promover o diálogo e o respeito entre governo e oposição - em contraponto ao estilo de seu antecessor.

"Maia estava no lugar certo, na hora certa", diz o consultor político Lucas de Aragão, da Arko Advice.

Após a gestão "autoritária e errática" de Cunha, a Câmara queria um presidente calmo e apaziguador, que não quisesse impor sua própria agenda nem fosse de um partido encabeçado por caciques, como o PMDB, o PSDB e o PT.

Sua vitória foi um trunfo para o DEM - que agora se vê como o primeiro partido na linha sucessória para a Presidência.

"Rodrigo Maia tem sido o que melhor representa o viés de alta do DEM", diz o líder do partido na Câmara, Efraim Filho.

"O Lula chegou a dizer que o DEM devia ser aniquilado. O pêndulo político estava à extrema-esquerda e hoje está na centro-direita. O Rodrigo simboliza esse novo momento, de diálogo mais moderado, temperado", diz Efraim Filho.

Segundo Efraim Filho, a ascensão do nome de Maia pode credenciá-lo à Presidência no futuro. Em 2018, ele imagina que o deputado possa concorrer ao governo do Rio ou ao Senado.

Já Cesar Maia, perguntado sobre o futuro político do filho, remete a um versículo da Bíblia no evangelho de Mateus - o 6:34. É aquele que diz:

"Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal".


Fonte: BBC Brasil