Fonseca Neto
25/04/2017 - 09:02

Antes de ser o que de fato é, a “reforma da previdência” cumpre um papel tático na eliminação dos direitos sociais do mundo dos trabalhadores no Brasil: trata-se de um bode fedorento que os golpistas botaram na sala para abafar a ainda mais grave, e para eles, essencial e inadiável reforma: a revogação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), isto é, a implantação da regra edulcorada, mas letal, do Negociado sobre o Legislado.

Qual a lógica da tática golpista, que é o preço cobrado por seus apoiadores do núcleo do Sistema do Capital? Alardeiam a “reforma da previdência” enquanto passam, ligeira e despercebida, a mudança que, de fato, impõem: o fim da CLT, mais importante e impactante lei brasileira. Pensava o leitor fosse a Constituição? É não. Para o golpismo neoliberal inclemente, “reforma da previdência” é mera questão de ajuste fiscal interno do Brasil. Já a chamada “reforma trabalhista”, isto é, o fim da CLT e do aparato protetivo que engendra, é um projeto-mundo de regresso civilizatório que o neoliberalismo vai impondo e que o Golpe no Brasil implanta, com pressa impiedosa, desarmado, neste instante, o campo popular-sindical de sua força de contraposição. Sem relações de trabalho formalmente regradas, não existirá Previdência ao alcance dos milhões de trabalhadores. Sem CLT não há nem porque se falar em Previdência, mormente Previdência pública. Repita-se, à exaustão: a prioridade das prioridades do golpismo ágil não é a Previdência, é a revogação do núcleo celetista, única proteção que os miserabilizados do nosso sistema social dispõem, obra de suas jornadas de luta em mais de um século.

Tudo parece muito embaralhado na presente conjuntura. O projeto do golpe em implantação rápida dispõe de imensa força, porque solidamente unidos permanecem no concerto insidioso contra o Brasil os seus principais donos: o empresariado maior, com seu braço em mídia, abraçado com a burocracia judiciária em refestelação e outros ramos apodrecidos do organismo estatal. “Parece”, mas para os golpistas neoliberais, na perfeita aliança com a nata da lama das viçosas oligarquias brasileiras, não há nada embaralhado.

E é numa dura ironia em relação aos mundos do trabalho que se revela a “perfeição” do plano tático dos inimigos históricos dos trabalhadores: propõem uma “reforma da previdência” absurda – para agitar a galera, porque mexe com a vida pessoal de cada um, enquanto tocam e aprovam a reforma das reformas, depois da tomada criminosa do poder anulando as urnas de 2014 – o fim da CLT. Uma das maiores provas dessa agressão à maioria da população brasileira em seu justo anseio de requalificar sua vida em dias melhores, vai dando tudo certo: o golpe avança em seu projeto e parcela imensa desse mesmo povo “divertido” com as armações farsescas de uma chefia político-partidária em toga, inimiga da paz social, prendendo e arrebentando adversários em nome da moral, de sua moral de classe. Inimiga visceral, é, do povo trabalhador como força humana na construção da História.

Mas que conversa é essa de campo popular-sindical desarmado para a luta, neste instante? Está na cara de todos nós; é processo, é fato histórico. História que conhece quebradas de esquina em seu andamento. O movimento que em quatro décadas encaminhou e alcançou um padrão de normalidade legal contra um regime de ditadura aberta, manchada com hediondos crimes, vê-se esgotado, sem capacidade de mobilizar reação contrária à avalanche da coligação golpista contra sua condição de vida.

Nota-se contra a mudança na Previdência uma certa mobilização que não há contra a revogação da cláusula estruturante da CLT. Por quê? A resposta implica reconhecer  algo preocupante: as corporações de interesses de caráter privado – sobretudo as que congregam funcionários estatais – ensaiam mobilização em defesa de seus direitos e prerrogativas, enquanto os trabalhadores não-estatais, em sua generalidade, acossados pela escalada do desemprego, p. ex., ficam desarmados para reagir à altura em defesa de seu direito de trabalhar sob a proteção da lei.

Golpistas retirarão sua proposta sobre a Previdência – redimensionarão seu projeto a menor – enquanto a revogação da CLT, tal uma bandeira secundária do trabalhador – será imposta, cumprindo-se o sentido maior do golpismo. De novo, sem contraposição para valer. Errado esteja nesta análise.