Fonseca Neto
24/02/2017 - 12:16

Em escala de grandeza inegável, a formação histórica do Piauí acontece, em longos trezentos anos (c1650 a c1950), sob a tensão da luta entre os muitos que precisam da terra como condição de viver e os que têm o controle sobre ela como fator de poder e mando. O tempo de agora, de todo, não escapa das travas que o latifúndio impõe desde o saque colonial inclemente praticado sobre a ancestralidade nativa.

Esforço de pesquisa digno de nota veio a público por obra do professor Ramsés Eduardo Pinheiro de Morais Sousa: uma dissertação de mestrado, na Ufpi, sobre a luta camponesa no Piauí, particularmente nos municípios de Campo Maior, Parnaíba e Teresina.

Com o título “Tempo de Esperança: Camponeses e comunistas na constituição das Ligas Camponesas no Piauí entre as décadas de 1950 a 1960”, o estudo/texto, detém-se, em resumo, na análise do “processo de emergência das Ligas Camponesas no Piauí [examinando] a constituição desse movimento social a partir dos empreendimentos cotidianos de camponeses e dos militantes comunistas piauienses. Argumenta que as relações entre as experiências absolutamente únicas desses sujeitos foram fundamentais para a criação das Ligas no Piauí, as tensões entre os grupos políticos locais e os conflitos cotidianos pelo acesso à terra no Estado”.

Trata o dissertando de objetivação complexa, enfrentada com chaves metodológicas instigantes. E entrega-nos o fruto de seu trabalho, assim capitulado: 1. “Intranquilidade e Desordem nos meios ruralistas”: a repercussão das Ligas Camponesas no Piauí; 2. “Os Latifundiários Estão se Assanhando”: o governo Chagas Rodrigues e as tensões em torno da questão agrária no Piauí; 3. “Terra Para Quem Trabalha”: os comunistas e a questão agrária brasileira; 4. “Nossa Luta é Bonita e Nos Enche de Esperança”: camponeses e comunistas na constituição das Ligas Camponesas no Piauí; 5. “A Gente Ficou Até Encantado Com Esse Negócio”: as Ligas Camponesas em Campo Maior; 6. “No Piauí Latifúndio Também é Cangaço”: os conflitos cotidianos pela terra e a violência no campo no Piauí.

A realização da pesquisa trouxe à sua oficina uma variada possibilidade de fontes: depoimentos, jornais impressos, alentada bibliografia, autos de processo. Ato de pesquisa que, consoante o caminho teórico e metodológico percorrido, chamou a si as falas havidas de atores do processo, camponeses de “carne e osso”, a saber, “Luís Edwirges, Martinho Soares de Abreu, Santídio Gomes Martins, Jacinto Carlos Altino, Veridiano Mendes da Silva e José Esperidião Fernandes”.

Ressalte-se que trazer ao diálogo a memória desses “agentes” centrais dos acontecimentos, para o autor, “em lugar de números e estatísticas”, assegurou examinar “as relações entre esses sujeitos” e seu atravessamento “por trocas recíprocas que permitiram o encontro entre expectativas e desejos de transformação da estrutura agrária brasileira, traduzidas através das lutas cotidianas pela

continuação do acesso à terra”. Para entender esse caminho de pesquisa, convém realçar a aproximação de Ramsés em face do historiador E. P. Thompson, enquanto polemizando este com L. Althusser, em Miséria da Filosofia...: “A prática teórica que rejeita o primeiro procedimento (“empirismo”) e reduz o segundo a uma caricatura ao medir todas as outras posições pelo confronto com sua própria ortodoxia preestabelecida, não prova coisa nenhuma, exceto a autoestima de seus autores. O projeto da Grande Teoria – encontrar uma conceituação total sistematizada de toda história e situações humanas – é heresia original da metafísica contra o conhecimento”.

Convém observar uma declarada motivação do autor, entre mais, para empreender essa pesquisa, qual seja, a percepção, como estudante do Curso de História, na Ufpi, “da ausência dos camponeses da historiografia piauiense”. Selecionado seu tema, no entanto, encontrou contribuições anteriores sobre luta camponesa no Piauí, com elas interlocutando, ora, tecendo aproximações, ora, marcando distanciamentos. Dialoga com Socorro Rangel, Antonio José Medeiros, entre outros pesquisadores do assunto, historiadores ou não.

Tendo sentido a falta, eis que o autor desse trabalho constituiu, com grandeza, sua própria contribuição para a história mais geral da luta pelo acesso à terra, inclusive em Campo Maior, onde lutadores arrancaram, vivo, em 1716, o coração de um padre a serviço da tirania dos insaciáveis por terras e gentes para submeter.