Fonseca Neto
09/02/2017 - 09:02

A direita sobre a qual estou falando é aquela conceituada por Norberto Bobbio, pensador italiano bastante conhecido: aquela que tem ódio de pobres e não das estruturas sociais iníquas que os empobrecem.

A direita – e ainda mais os fascistas, sua manifestação mais degenerada – tem na violência uma expressão genuína de prática política.

Dias violentos estes, sob a égide de fascistas, alguns, fanáticos religiosos. Horas decisivas na construção da vida social brasileira. Golpistas triunfantes se lambuzam cada vez mais num festim macabro: torram, com rapidez, o patrimônio do povo, presenteando empresários estrangeiros; o Judiciário, e órgãos conexos, tipo procuradorias, polícias, associações profissionais, manipulam, sem vergonha alguma, o encaminhamento do golpe rumo à sua consolidação: o roubo ainda maior da vida dos empobrecidos. É a ideologia liberal radical levada a efeito por timoneiros indecorosos. Também não há mais Legislativo no sentido pactuado de 1824 a 1988; há, sim, ajuntamentos de interesses escusos de facções. Exemplos a toda hora: a suspeita de arranjo na escolha da relatoria suprema no lugar de Zavascki; o “sigilo” do teor das acusações delatórias, politicamente negociado no interior do Golpe; o golpe regimental garantidor das facções antirrepublicanas, coligadas, na direção das câmaras, que empolga a nata da lama, que blinda o Angorá...

Fascistas são aqueles seres monstruosos que não toleram avanços nas formas ditas civilizatórias de encaminhar o viver humano. A democracia, por exemplo, enquanto inspiração radical e modo adequado de fazer-se o viver igual e fraterno, tem, nos fascistas, um inimigo a derrotar, com vigor.  

No Brasil, politicamente uma extensão deformada dos pensares e agires de gente vinda de longe em busca do enriquecimento fácil, a direita moldou as estruturas da organização social e política em cinco séculos de um aprendizado que lhe tem permitido conservar o poder e a direção política da sociedade, quase que “naturalmente”.

A vitória do golpe 16 forjado pelas forças direitistas, com decisiva articulação e apoio das várias segmentações corruptas do poder estatal e do empresariado, empoderou toda forma de violência. As facções sujas alçadas à cabeça da governação, em todos níveis, agora, de vez, solapa a República. República, relembre-se, sonhada e insone, e já nos séculos pretéritos, “traçada” violentamente por vilões inescrupulosos, agentes da colonização infindável e empecilho histórico do erguimento do Brasil em Nação e Estado soberano. 

A ruptura violenta do pacto legal em sua versão fixada em 88, autoriza, de cima a baixo, e de uma regionalidade a outra, o furor de violência que incendeia a vida social brasileira, com decisivo incremento pela ação político-partidária articulada e assumida pela mídia oligárquica, e pelo Judiciário, além do Legislativo, para fazer o golpe. A primeira, grave abominação, vende “opiniões” de ódio, fatura cifrões, enquanto dementiza, na exasperação do próprio ódio, os nervos da sociedade.

Convém realçar que o estado de grave violência política desencadeada pela ação criminosa contra as instituições, não se distingue do quadro da violência geral percebida pelos brasileiros no seu cotidiano. 

Os exemplos destes dias sombrios, de morte, da legalidade política e da segurança jurídica, e da morte física de Marisa e Zavascki, despertem a vontade, sobretudo da juventude, de entender o que está ocorrendo no Brasil neste momento. 

As celebrações da morte, da primeira, por médicos fascistas, inclusive ensinando a violência bestial de matar no leito da UTI; e do desaparecimento do segundo, comemorado, in pectore, sob vários motivos, por seus sócios golpistas de ontem, são indícios do estado indigente em que se encontra o corpo social brasileiro.   

Para onde vai essa República em desatino, imergindo no ódio, na intolerância, no vil oportunismo de quem deveria defendê-la? Caminha célere no regresso conservador da Casa Grande, anulando avanço vislumbrável na vida de milhões de patrícios sem direito a futuro.  
E a esquerda, também na acepção bobbiana, seria, em cena, uma vestal? Elas não existem além do mito. Agindo à luz do dia, ou dissimulada, a propensão da direita ao crime, seu desapego ao convívio e à cultura da paz, devem ser tenazmente rechaçados.