Fonseca Neto
31/03/2017 - 08:53

Caiu nas minhas vistas um livro danado de bom e de compenetrado, feito por um moço lá da ribeira do Marathaoan, onde este rio faz barra com o dos Longazes. Do que trata?

O livro é escrito por Antenor Rêgo Filho como resultado de um apanhado de expressões características do modo de falar dos piauienses moradores da mais que ducentenária povoação das Barras, municipalidade oitocentista que originou várias outras, do que se pode dizer que a base do que estuda é mais do que o velho município-tronco e os campos maiores.
O autor trata do linguajar e palavreado piauiense mais particularizado nos usos barrenses, mas, a rigor, colhe o seu material fugidio no campo dos falares comuns da nossa imensa sertanidade meio-nortista, inseparável de suas matrizes maranho-baianesas. 

Nasci e me criei também no sertão adentrado e reconheço a maioria das expressões sabentes tão oportunamente fixadas nesse registro literário pelo dileto amigo Antenor Rêgo. Digo que conheço porque aprendi a falar com o pleno uso delas, lá na ribeira do riacho Inhumas onde “nasci e me criei”, em Passagem Franca, a uns 300 quilômetros distante da Barras antenorista.
Ainda assim, verifico uma acentuada variedade de acepções e também entre os modos de grafar alguns vocábulos, e deles fazer usança, conforme sejam as nossas ribeiras de nascença – as Barras e a Passagem –, o que evidencia algo muito forte no processo de formação social-linguística de cada microrregião brasileira. Para inticar na prosa, eis algumas expressões que considero ilustrativas... 

O abacaxi das Barras lá na Passagem puxa a pergunta: “é abacaxi ou ananás brabo?” “Amarrou o facão”, por lá também, diz-se da pessoa que cisma com algo na hora agá, que fica “intufada” e ninguém altera o humor. Arigó na Passagem é também o sujeito “argé”, que não toma jeito de aprender a fazer nada, ou só faz coisa “labocheira”. Arroz doce se faz por lá com “arroz das primeiras panhas, verdoso”. Arrotar pabulagem se diz que é coisa dos “gabolas”, ou “gavolas”; por lá tem também o “bunda de jornal”, pessoas que têm os “quartos” retos.

Na Passagem usa-se a banha (de galinha) para fazer “esfricção” no “peito cerrado” de meninos e meninas; e rola-bosta se chama também de “tomba”, e são muitos pelas veredas do mato de manhã cedo. Coco babaçu é “pisado” no pilão para misturar no beiju; boca de lobo é nó frouxo em “estrovo” de rede para encutar-lhe o mamucabo e punhos para ajustar às “escapas”...; boi de carro é o que puxa ‘carro de boi”.

Se nas Barras tem o cabeça de bacurau, na Passagem tem o “cabeça de motor sem apito”, aquadradada; tem lá também o “catitu” com “dente” de ferro amolado, que do seu rodado ligeiro no aviamento da farinhada respinga e prega na tampa uma qualidade de matéria que se chama de “massa do suspiro” – dela o mais fino beiju. Do que caiu que nem jenipapo, lá se exclama: “pofo!” – “apracatou” no chão. Para o calado como quem comeu jaca, lá se tem o “calado que nem um coco”. Lá se bota cambão em todo bicho “roceiro”, que “vara” as roças, e cambo de peixe é “atio”. E atio também é “moi” de espiga de milho. O capar a franga é “capar o gato”; de carregação é o de menor qualidade e que “todo mundo tem igual”. O carrapicho é frutiquinha seca e espinhenta de um capim das capoeiras e monturos velhos. De chão batido é casa “aterrada” – de preferência com barro babado de cupinzeiro. O cavalo do cão é um marimbondão que caminha manso e parece solitário. O ceroto formado por sujo colado nos fundos da cantareira, das “fontes” da testa e detrás das orelhas, lá é chamado de “canteiro”. 
No sertão das barras chana é rapariga e no sertão das passagens chana é “gata”. Aliás, no linguajar urbano recente, gata é rapariga bonita, “moça” bonita. “Rapariga”? Não estando nós no velho Portugal, fábrica e fornalha falante do latim vulgar, mas nos sertões inzoneiros, vamos maneirar esse falar em rapariga. Gostosa prosa, voltemos a ela.