Fonseca Neto
20/01/2017 - 16:42

Os sertões desta região Meio Norte do Brasil estão vibrando com os sinais do tempo chuvoso chegante. Uma breve imersão nos mais estendidos arredores de Teresina – e na própria cidade – permitem verificar as mudanças na vida comum dos sertanejos.

Nem se sabe ao certo se chuvas haverão com regularidade neste “inverno”, o que não diminui as alvíssaras deste começo de mês e ano. Há nevoeiros, trovões insinuantes. A “chapada do corisco” ainda meio saudosa de suas tempestades benfazejas.

A chuva é algo imprescindível, os da roça o sabem perfeitamente, suas vidas perdem o melhor sentido, exasperam-se em olhar o céu, desejada a sua mutação de azul luminoso para o cinzento escurecido – plumbus – desfazendo-se em chuvarais.

Duas centenas de quilômetros de Teresina, fui a Passagem Franca nestes dias dá uma olhada nas coisas por lá, como vão a “minha terra e minha gente”, neste que é tempo de festejar o Padroeiro, São Sebastião. Ali notei uma animação muito grande pela chegada das chuvas, ainda que já tardias para muitos.

Criança por lá, já via/ouvia dizerem que o Festejo sem chuva não animava ninguém, do povo da roça ao vigário; para começar, sem roças em viço, donde viriam as melancias da joia dos leilões, os jerimuns e feijões verdosos que garantiriam as esmolas para os cofres padroeiros?

Em Passagem Franca, e em todo o sertão dos “pastos bons”, repita-se, além dos pastos genéricos, o mês de janeiro trás as verduras das roças, além dos referidos melancia, abóboras e feijões; maxixes, pimentas e quiabos; os primeiros melões e meloas. Milho verde, arroz doce e gergelim virão logo no tempo seguinte, da Quaresma.

Diga-se que esse tempo das culturas de roça sucede, ali, à época da manga, pequi, bacuri,  cajuí e buriti. Ficam os doces desse frutaral, arte que vai desaparecendo, porque receitas se alterando, ao sabor e proveitos dos saboreios mitigados das televisações alienígenas. Mais para as beiras de brejo e dentro do mato insistente, madeira sem lei, o jamelão, o jatobá, o puçá, a ingá, taturubá.      

O “inverno” em nossos “pastos bons” começava em outubro; não acontecendo, já em novembro saíam as peregrinações pelos caminhos dos roçados, dona Fausta Braga à frente segurando a imagem do Padroeiro, e outras e meninos as de Santa Luzia, Inês, Joana D’Arc... Incrível! Não era incomum se voltar com as “cabeças dos santos” molhadas, um auspício grandioso de nossa gente fiel.

Mas tudo isso mudou muito nestas cinco décadas findantes, pois já se começa a achar normal a falta de chuvas de outubro a dezembro. As matas fartas foram liquidadas onde conseguiram chegar os motosserreiros agora levando o que restou de mata menor, com essas motos portáteis.

O machado das lavras do roceiro simples foi assim substituído pelo dente de ferro, feroz, do puro predador, mero parasita da natureza, que primeiro liquidou em toras a madeira de lei para as usanças de longe, agora devorando a vegetação fina, reduzindo-a em lachas ou hachas de lenha para as carvoarias metalúrgicas. Lá se diz que as terras – devastadas – virou um sembal sem alento, mortificante.

Também muito significativa a mudança na relação dos camponeses com os donos de terra. De há muito uma relação de grave exploração, mas com maior liberdade do agricultor de roça, criador de bode, galinha e porco, viver a vida no campo e exercer seu labor sobrevivente, agora restou somente a exploração pura, milhares de desterrados da roça em desesperança.

Contudo, ainda que reinventados certos modos, o jeito de viver em nosso interior segue cheio de impulsões animadoras quando o tempo fecha, o arvoredo que sobrou, balança, quando os terreiros, beiras de caminho e prados explodem em babugem.

Babugem: este minúsculo sinal de vida verde que irrompe após as primeiras águas; um relvado, qual tapete, rente ao chão, que faz a bicharada da criação babar de contentamento. São minúsculas e nativas gramíneas, leguminosas e outras espécies que anunciam o tempo melhor. Aliás, esse também é o tempo em que os “animais” escramuçam, festejam a vida que há de seguir.   

14/01/2017 - 09:24

Tinha que fazer uma chacina por semana”. “Matar mais”: esta manifestação plena de ódio é de um jovem, o Secretário da Juventude do PMDB – licenciado para ocupar o cargo de Secretário Nacional de Juventude, nomeado pelo governo, de fato, chefiado pelo Impostor da Republica. Um cargo de nível ministerial, vinculado ao Planalto. 

 

Ainda que um governo ilegítimo, alçado à chefia da nação por um golpe maquinado por forças degradadas do Judiciário e do Congresso, fortemente apoiadas politicamente na mídia oligárquica, essa fala emitida a propósito da matança em presídios brasileiros, revela a profundidade do estado de indigência mental-moral que assola parte expressiva do pensamento e atitude dos brasileiros nesta quadra da vida social em fluxos.

Chama-se Bruno Julio o autor dessa afirmação temerbrosa, que disse mais: “Eu sou meio coxinha sobre isso. Sou filho de polícia, né”. A observação com que tenta justificar essa forma de sentir e pensar, acrescenta ainda mais significados deletérios – se é possível – à citada manifestação, porque atribui à ambiência paterna-policial a filiação do jeito doentio de pensar.
“Cada ato político envolve a totalidade da história”: usemos essa chave de compreensão, concebida por M. M-Ponty, para continuar examinando o episódio.  

Por que um governo nomeia uma autoridade para tão relevante função com inclinações criminosas? E logo com a atribuição institucional-legal de dirigir as políticas públicas referidas à juventude? Um governo nomeia uma pessoa com esse perfil porque ele próprio, governo, assim pensa e quer agir. É fato. A nomeação desse moço de pensamento nazi é uma forma de agradecer a milhares ou milhões de jovens patrícios que apoiaram e apoiam o golpe que criou o poder delinquente que agora manda na burocracia da República, que cambaleia na inconsequência. 

O Brasil vive uma época de apressamento do seu regresso civilizatório, marca indelével da dinâmica de sua formação histórica. 

A fala desse desatinado, exprime, como ato político de grave potencial delitivo contra o ser humano, a “totalidade da história” das inspirações e formas de pensar prevalecentes de parte substantiva da elite que se fez dirigente na formação social brasileira em cinco séculos. 
Ouvi alguém lembrando em programa de rádio que “as prisões brasileiras de hoje guardam muitas semelhanças com as masmorras medievais-coloniais”, num debate em que outros pensam exatamente o contrário, afirmando que prisioneiros no Brasil “vivem como se fossem em hotéis de luxo pagos com o dinheiro do povo”. Há razões e contrarrazões nessas maneiras de expressar um fato grave que é o aprisionamento de alguém em face das condutas que assume para si num dado contexto. Daí ser razoável não pensar a questão em termos da dualidade excludente acima lembrada, mas sem fazer de conta que ela não é grave, sob pena de se cair, inconsequentes, pelo ralo das insoluções. 

A totalidade da formação social brasileira é profundamente marcada pela cultura da violência e da violência em modo de hediondez: a) o geno-etnocídio praticado sobre os ancestrais humanos desta atlântica margem e o destroçamento de sua ambiência natural-cultural – vidas roubadas; b) o sequestro afro e o exaurimento de milhões de corpos pelo trabalho escravo, em quatro séculos da formação brasileira – a humilhação pura e cruel, o estupro generalizado, a impiedade, vidas roubadas...; c) a sonegação, longamente adiada, e nunca devidamente aceito pelos que se fazem elite dominadora, do direito que todos têm de trabalhar em dignidade – vidas e força laboral roubadas; d) a anulação, na prática, do direito de ser livre, poder livremente fruir as possibilidades que este país generosamente dispõe a seus filhos – vida e liberdade roubadas por uma minoria infame e infamante. 

As cadeias brasileiras –a quarta população encarcerada do planeta – são o inferno sobre a terra preparado para os “pecadores” que as diversas pauperizações produziram. Os que prepararam esse inferno não vão para ele... Quem tem “nível superior” estar fora. Rico criminoso? Consiga ele ser ainda mais infame, delator, e tem prêmio na certa. 

06/01/2017 - 08:51

“República Bananera” é uma forma debochada que a aristocracia colonizadora, notadamente dos EUAN, inventou para se referir ao conjunto de países latino-americanos, velhas colôniasque, como expressões de coletividades nacionais,ainda não quiseram se constituir em regimes políticos estáveis.

Essas “repúblicas” não se fizeram expressão política acatável pela comunidade internacional, infundindo a imprescindível respeitabilidade no chamado “concerto das nações”. E esclareça-se: quando se fala em “aristocracia colonizadora” também não se quer dizer que seja apenas aquela, de fora, mas, antes, aquela que atua dentro dos próprios países assim tidos.

No caso do Brasil –para essa aristocracia rapina um bananeiro gigantesco pela própria natureza –, a percepção de república bananeira acentuou-se gravemente com a anulação, por um golpe de Estado, do resultado da última eleição presidencial. Processo dirigido pela fração mais podre da referida “aristocracia”, rentista, anti-brasileira, e inteiramente deformada pela corrupção.

Na linha das “banânias repúblicas” mais escandalosas, a tomada violenta do poder recente no Brasil, nada em braçadas, fazendo arranjos no interior da estrutura apodrecida de poder. No lugar dessa estrutura onde não há distinção entre interesses privados e público-estatais. As mastodônticas corporações empresariais e as esferas de alto a baixo do Estado, igualmente em viço corporativoputrefato, têm as mãos e o destino, sujando-se mutuamente, lavando-se mutuamente, premiando-se mutuamente em atos de delação, esta pornoperversão ética, malandra.

Nesse sentido, as chamadas “delações premiadas” no Brasil encaixam-se, sem-vergonha e perfeitamente, no metier das costuras políticas mais infames, perfeitamente ajustadas na referida mutualidade de perdões trocados entre agentes e corporações esquecidos de qualquer compromisso histórico de decência na condução da vida social. O que não faltam são exemplos dessa mutualidade meliante: empresários de todo tamanho roubam, compartilham o fruto do roubo com agentes públicos, que, lógico, assim comprados, criminosamente, não os punirão. O resto é pantomima e engodo de um país inteiro.

Contudo, esse ordenamento social debilitado não tem na corrupção, em si, a expressão mais danosa a demolir projetos de grandeza nacional. E por quê?

O Brasil tem “a melhor gente para [com ela] se fazer um povo”: da lavra pensante seminal de Darcy Ribeiro, essa gente que está demorando tanto para fazer-se povo assim o demora, justa ou injustamente, porque não teve e parece não querer ter convicções democráticas; um corpo social excessivae racionalmente poroso aos ataques do golpismo de variada espécie; falto de cultivos de civilidade. Uma gente incrivelmente afeita ao “viver em colônias”, a amar “de longe” os modos do viver em “metrópoles”.

Em ambiente assim, nutre-se todo tipo de poder deformado, por isso a maior característica das banânias são seus regimes e governos débeis, suas ditaduras, a baixa estima cívica de suas populações, inebriadas pelo que seria a “democracia do primeiro mundo” ... E principalmente e razão maior de tudo: a dependência voluntária em todos os sentidos dos países que se impõem como Impérios.

O golpe que anulou o resultado das eleições de 2014, agravado pelos assombrosos episódios de 2016, sinaliza o maior ataque especulativo para reajustar o Brasil na sua condição de “república bananeira”, no mais feio modo que comporta no deboche dessa acepção. A desdita de contemplar a face e ouvir o palavrar do Impostor da República do Brasil, do “mineirinho”, da mineirinha-presidento, da vestal italiota,entre outros, é ter uma prova acabada do viver em banânia. Funcionário público, sem loteria, nunca vai enricar, mas na banânia é só conferir a “festa” das corporações dos “da lei” e dos parlamentos avançando sobre o Erário. Eras de danação.

Ideologicamente movido pelo ódio ao chamado “petismo”, mas antes e muito mais por histórica convicção de capataz e classe senhorial arraigada, o bando bananeiro-golpista executa sua tarefa: anula a Constituição, e elimina um punhado de direitos havidos por décadas de pelejas lutadoras da gente trabalhadora. E de ideias de nação soberana e cositas mas. Esse o alvo.

O povo é mesmo contra a corrupção? E porque aceita a gangue “da sangria” ficar onde está?  “República do Paraná”? O proscênio privilegiado da articulação do mútuo perdão premiado de nossas misérias políticas.  17 nasce escuro-emormaçado.

(Banânia: obrigado ao jornalista Davis S. Filho pelo mote).

03/01/2017 - 08:59

Uma história que não deve se deixar de contar neste velho mundo belo, bom e tinhoso. Diz respeito ao jovem José Galiza, um gênio da mecânica que viveu em Teresina e Timon, décadas atrás.

Era 1973 para 74. Do Exército, além de chefiar a Ditadura federal, os seus Batalhões de Engenharia estavam engajados em grandes projetos estradeiros, e, no Piauí, além do 2º, instalara-se recentemente o 3º BEC. A BR-316 estava entregue a eles, completando a ligação asfáltica, por Teresina, entre Salvador e Belém.

O tempo era o do chamado “milagre”, e o interventor do Piauí – governadores eram escolhidos pela Ditadura – também tocava vistosos projetos de engenharia... A empresa importadora brasileira de tratores e equipamentos afins, Citreq, sediada em Belém, e filial em Teresina, praticamente vivia em função de atender às demandas estradistas do Exército e de construtoras locais de menor porte. A sede, então, ficava na avenida Barão de Gurgueia, no bairro São Pedro.

A Citreq importava e revendia as máquinas Caterpillar, fabricante da motoniveladora, chamada vulgarmente de patrol (“patrólia”, no popular). Contudo, o rei da linha amarelo e preto, era, então, o mitológico e valente D8. A montadora brasileira, em Piracicaba, só produzia até o D4. Nos EUA, , foi então lançado “mundialmente”, com alarde, o D9, promovido como máquina tecnologicamente muito avançada entre as de sua geração, um trator-monstro, um “tatuzão” de superfície.

E onde entram os donos desta história, o Galiza, e este escriba?

Lançado o D9 nos EUA, logo o 3º BEC pede 6 unidades. Chegam no porto do Itaqui e são, a duras penas, em carretas possantes, transportados para a região de Picos. A fábrica e a Importadora fizeram o protocolo da “entrega técnica”, treinaram os tratoristas, e os D9 entraram em campo. E não foram longe: poucos dias depois, sem atingir as 100 horas do “teste” de operação, um deles apagou, tipo motor “batido”. E foi o que aconteceu: horas depois, um segundo também quebrou, de igual maneira, e logo um terceiro... A essa altura toda a Peoria, em Illinois – cidade-sede mundial da fábrica – já se mobilizara com a notícia e mais 3 ou quatro dias chegavam em Picos os engenheiros-fabricantes. Da matriz, em Belém, e da filial teresinense, seguiram seus próprios engenheiros, e com eles, o Galiza, jovem, semiletrado, e o mais festejado da equipe local de mecânicos.

Desmontada a grande máquina, com todo cuidado, e, qual numa UTI, feita a perícia inicial – tudo fotografado com a maior precisão –, logo se constatou, a pane fora causada pela rachadura do tampão, a qual tinha um peso de mais de mil e duzentos quilos. E dessa peritagem preliminar, veio a pergunta crucial: porque “quebrou” aquela e mais bem fundida peça de qualquer artefato auto motorizado? Muito se especulou: faltou lubrificante? Foi o clima tropical escaldante? Imperícia de recrutas “brabos” em direção de trator...? Nada disso; ficaram apenas cheios de hipóteses.

E o Galiza? Sem entender muito do que diziam “os gringos”, mas entendendo tudo que via, rindo simpaticamente, sempre, murmurou ele ao intérprete que desconfiava de algo; os engenheiros da Fábrica ouviram-no, não desdenharam do “negro velho aqui!” (ele dizia), mas

também não deram muito crédito. Votaram para lá, e seus laboratórios etc. Os três tampões, de igual forma trincados, foram removidos e embarcados [os embarquei] de volta para os EUA, para os exames laboratoriais próprios. A fábrica determinou que os demais tratores parassem de operar, até sobrevirem as respostas cabais.

Que vieram, meses depois. E quais? Na forma de um convite especial ao Galiza, que tinha razão em seu “diagnóstico”, ainda em Picos, sobre a causa da danificação dos tampões. Convite, com tudo pago, uma homenagem, para ele gozar uma temporada na cidade de Peoria, a conhecer o coração da Caterpillar Inc. “Eu vou é nada...”, espalhou entre os colegas na oficina da Citreq.

O mais acertado que se pode dizer dele é que era um menino levado, espírito brincalhão ao extremo, aliás, fazia do trabalho rotineiro uma atitude de graça e amizade. Um acidente, de carro, o subtraiu num dia desses. Teve, mas não criou os filhos. Timon e todos choramos um anjo fluindo aos céus.

Fonseca Neto

Fonseca Neto é advogado, historiador, escritor e professor. Membro da Academia Piauiense de Letras. Estudioso do tempo, Fonseca escreve sobre fatos históricos enquanto memória e realidade. Seus artigos formam um breviário do cotidiano piauiense e brasileiro, levando o leitor a uma verdadeira viagem no tempo.