Fonseca Neto
06/02/2017 - 08:39

Rossio é uma designação geral muito antiga, nas tradições linguísticas portuguesas, significando, entre mais sentidos, “terreno possuído e explorado em comunidade, por uma povoação”. Vimos isso num dicionário da Academia de Lisboa. Rossio, e/ou rocio, dos recônditos da formação da língua portuguesa, quer dizer, enfim, praça; espaço aberto de uso comum das póvoas ibero-lusitanas. Rossio, ou rocio, segundo Duarte Nunes é “prado, na vila, ou cidade [...], são lugares descobertos, patentes às influências dos orvalhos do Céu...”. 
Não se estranhe que daí provenha o dizer-se roça para significar o terreno dos cultivares... Mas vamos ao assunto desta nota que celebra nossa Oeiras da Mocha. 

As vilas e cidades velhas de Portugal geralmente tinham seus rossios, ou praças centrais, como lugares de exercício dos rituais da vida pública. Em Lisboa, há o famoso Rossio local, ainda hoje um dos lugares que mais reiteram a Lisboa milenar. Refuncionalizado para as usanças atuais, diga-se, mas repleto de signos da ancestralidade da vida local.

A Mocha, primeira vila do Piauí – depois cidade de Oeiras –, no cálculo do iluminismo do Setecentos, tem seu grande rossio original. O de Oeiras do Piauí é enorme, tendo, em local destacado, uma velha igreja, a matriz, agora catedral da Senhora da Vitória. O grande largo, ou praça, chama-se “da Vitória”.  

Oeiras, póvoa católica radical, tem por essa circunstância associado o seu rossio aos rituais das liturgias públicas da catolicidade, somadas às de sua condição de sede da administração piauiense por mais de século. E os rituais da vida social comum. 

Nessa posição singular de primeira em muita coisa no Piauí, nos dias 23 e 24 de janeiro últimos, Oeiras voltou a ser capital, em meio a celebrações cívico-comunitárias muito vistosas. Um mote de real significação histórica ali ocorre neste ano, que são os 300 anos de elevação da freguesia ao patamar de vila-município, fato que ganhou concreção definitiva em 26 de dezembro de 1717.

Dia 23, a secular sede municipal, Casa de Câmara e Cadeia, à praça baixa, derramou em seus janelões, em panôs, as insígnias da cidade, enquanto o governador do Estado assinava decreto de seu ofício alusivo ao fato. Pela tarde, reunidos no novo edifício da Câmara Municipal, à praça alta, solenizou-se a abertura do ciclo celebrativo do Tricentenário, com palestra e amedalhamento, em ato que reuniu os presidentes dos três poderes constitucionais do Estado, além do corpo dirigente que governa a municipalidade. Seguiu-se, num outro extremo do rossio vitoriano, governador à frente, a instalação do Instituto Histórico de Oeiras, instituição cultural maior da cidade, na “casa das doze janelas”, enquanto a Santa Cecília executava populares dobrados. Pelas sete da noite, no adro da Catedral, no centro da praça, assistiu-se a volta do pleno funcionamento do relógio (de 1823) no campanário, iluminado; a ele conexos, dobraram por nove minutos os velhos sinos, enquanto tudo se iluminava por fogos artificiais. Cena de muita beleza, espetáculo que devolve a Oeiras o esplendor dos grandes acontecimentos de sua vida pública, de rituais católicos, militares, civis e culturais, em sentido estrito. 

E logo na Catedral, acenderam-se lustres pendentes novos e encheu-se de gente para ver/ouvir a Orquestra Sinfônica de Teresina, ante o retábulo vetusto da Padroeira, e sob o arco-cruzeiro central. Do lado de dentro, a OST, magistral; do lado de fora, não somente o “orvalho” janeirino, mas um toró copioso, banhou não só a Igreja da Vitória, mas toda a Oeiras. Foi então comovente a homenagem musical a Possi, um grande do lugar. Também positivamente desconcertante a vibração catedralícia, que mitigou o “tico-tico no fubá,” enquanto inticando com a Quinta beetoveana. O maestro oeirense Aurélio Melo transbordava em sua arte, apresentando-se ao lado de sua Pia Batismal. Noite cheia de ternura.  

Ainda se viu no terreiro do Café Oeiras, sob chuvisco, madrugada avançando, lançamento de livro, cantarolagem diversa. Fora do rossio, os “congos” foram vistos no Palácio dos Governadores. Dia 24 a cidade relembrou a Adesão do Piauí ao Império de Pedro I: sob chuva, pelotão em forma, Parada Militar, Te Deum, Medalhas. “Oeiras é assim”, diz a escritura local. É mesmo.    

 

01/02/2017 - 13:16

A mídia oligárquica está exibindo as cenas de um caixão defuncto, rodeado de acusados em processos criminais que o ocupante do caixão, um juiz morto, estava encarregado de decidir sobre eles. 
Um teatro assombroso, à frente cavernosas figuras que assaltaram a República, o cavernoso-mor à frente. O morto, figura central no desenrolar da trama golpista que, se não destruiu de vez, jogou para as calendas insondáveis, no Brasil, o que se vem chamando de Estado de Direito.  
A morte dessa figura central no golpe em curso – em acidente aéreo-marítimo –, adiciona uma pitada ainda mais gravosa nos encaminhamentos do processo político brasileiro, comprometido pela violência jurídica e ruptura anulatória do pronunciamento das urnas para a presidência da República, obra de criminosos atuando entre as esferas estatais e privadas. 
O noticiário dessa morte, veiculado pelo situacionismo midiático, celebra a figura do extinto, realçando o que seriam as qualidades “técnicas” de judicatura e compromissos republicanos dele. 
Numa olhada de relance no manchetário deste domingo em que escrevo, por ex., vejo que a FSP celebra o novo “herói” nacional, enquanto diz que sua morte “beneficia” o usurpador da República. Morte que beneficia? O danado só pode é tá perto duma coisa dessas.  
Sacando pela mídia que se faz “alternativa”, colhi outras observações que servem ao debate nos escombros da institucionalidade. A propósito da condição do falecido, de juiz tido por “técnico”, como figura central, no STF, das tramas em fluxo, vi o professor Sávio Reis (no “247”) afirmar: “... como sabemos, as instituições totais moldam as pessoas. E como nos lembra Foucault, tais instituições produzem pessoas disciplinadas, conformadas e mansas”. E assim, atuando numa corte altamente marcada pela injunção politicalha, esquecida o compromisso histórico que deveria assumir, acentua que duas decisões tomadas pelo morto “foram fulcrais para o andamento e a consolidação do golpe. Primeiro, ele ficou chocando por vários meses o pedido da PGR de afastamento do carcará Eduardo Cunha, o primeiro e estratégico condutor do processo golpista. Tempo suficiente para a mídia cumprir seu papel de promotora do golpe junto à base social conservadora, insuflando as manifestações domingueiras. Com isso, o nobre e impoluto presidente da Câmara [à época] teve tempo suficiente para articular a votação escrota do fajuto impeachment naquela casa legislativa; aquele espetáculo deprimente numa tarde de domingo”. Continua lembrando que, por suposto, tivesse o juiz morto, “como um magistrado ‘técnico’, tenha demorado na sua decisão por cumprir ritos processuais. Ou por prudência. Ora, como é possível cumprir ritos quando a democracia e a Constituição eram violentadas por segmentos da pior espécie?”

Escrevendo no dito Portal, também vi Carlos Odas, que assina como militante partidário, sugerir que a “República após o golpe de 2016 é um móbile, aquela estrutura meramente decorativa e que é sustentada por um fio; e o fio que sustenta essa mentira é a narrativa falsa, forjada por meios de comunicação corruptos e despejada diuturnamente sobre as cabeças de cidadãos incautos, que acabam por pedir para si mais exclusão, mais desigualdade, mais injustiça e menos liberdade”.
É contundente e não fica por aí o militante do PT, acrescentando que a omissão do ministro morto, “ao permitir que um rematado ladrão liderasse o processo que trouxe o Brasil à condição atual, passando de república presidencialista a uma canalhocracia parlamentar, pode, em última análise, ter sido elemento chave da tragédia que ceifou sua vida. O Ministro tinha todas as condições de ter afastado Eduardo Cunha da Presidência da Câmara antes da sessão de 17 de abril, cujas cenas cobriram o país de vergonha; de todos modos, essa mesma omissão iniciou a degradação sem precedentes e que fez derreter o país, sua economia e seu incipiente projeto de democracia”.

De nossa parte, apontaria uma incompletude quanto a essa ideia de que o país teria ficado coberto “de vergonha”, com as cenas daquele domingo da canalhocracia triunfal. Noto que não. Brasil se envergonhasse com golpes não os aceitaria como aceita. Golpe aqui se consolida até quando afunda. 

20/01/2017 - 16:42

Os sertões desta região Meio Norte do Brasil estão vibrando com os sinais do tempo chuvoso chegante. Uma breve imersão nos mais estendidos arredores de Teresina – e na própria cidade – permitem verificar as mudanças na vida comum dos sertanejos.

Nem se sabe ao certo se chuvas haverão com regularidade neste “inverno”, o que não diminui as alvíssaras deste começo de mês e ano. Há nevoeiros, trovões insinuantes. A “chapada do corisco” ainda meio saudosa de suas tempestades benfazejas.

A chuva é algo imprescindível, os da roça o sabem perfeitamente, suas vidas perdem o melhor sentido, exasperam-se em olhar o céu, desejada a sua mutação de azul luminoso para o cinzento escurecido – plumbus – desfazendo-se em chuvarais.

Duas centenas de quilômetros de Teresina, fui a Passagem Franca nestes dias dá uma olhada nas coisas por lá, como vão a “minha terra e minha gente”, neste que é tempo de festejar o Padroeiro, São Sebastião. Ali notei uma animação muito grande pela chegada das chuvas, ainda que já tardias para muitos.

Criança por lá, já via/ouvia dizerem que o Festejo sem chuva não animava ninguém, do povo da roça ao vigário; para começar, sem roças em viço, donde viriam as melancias da joia dos leilões, os jerimuns e feijões verdosos que garantiriam as esmolas para os cofres padroeiros?

Em Passagem Franca, e em todo o sertão dos “pastos bons”, repita-se, além dos pastos genéricos, o mês de janeiro trás as verduras das roças, além dos referidos melancia, abóboras e feijões; maxixes, pimentas e quiabos; os primeiros melões e meloas. Milho verde, arroz doce e gergelim virão logo no tempo seguinte, da Quaresma.

Diga-se que esse tempo das culturas de roça sucede, ali, à época da manga, pequi, bacuri,  cajuí e buriti. Ficam os doces desse frutaral, arte que vai desaparecendo, porque receitas se alterando, ao sabor e proveitos dos saboreios mitigados das televisações alienígenas. Mais para as beiras de brejo e dentro do mato insistente, madeira sem lei, o jamelão, o jatobá, o puçá, a ingá, taturubá.      

O “inverno” em nossos “pastos bons” começava em outubro; não acontecendo, já em novembro saíam as peregrinações pelos caminhos dos roçados, dona Fausta Braga à frente segurando a imagem do Padroeiro, e outras e meninos as de Santa Luzia, Inês, Joana D’Arc... Incrível! Não era incomum se voltar com as “cabeças dos santos” molhadas, um auspício grandioso de nossa gente fiel.

Mas tudo isso mudou muito nestas cinco décadas findantes, pois já se começa a achar normal a falta de chuvas de outubro a dezembro. As matas fartas foram liquidadas onde conseguiram chegar os motosserreiros agora levando o que restou de mata menor, com essas motos portáteis.

O machado das lavras do roceiro simples foi assim substituído pelo dente de ferro, feroz, do puro predador, mero parasita da natureza, que primeiro liquidou em toras a madeira de lei para as usanças de longe, agora devorando a vegetação fina, reduzindo-a em lachas ou hachas de lenha para as carvoarias metalúrgicas. Lá se diz que as terras – devastadas – virou um sembal sem alento, mortificante.

Também muito significativa a mudança na relação dos camponeses com os donos de terra. De há muito uma relação de grave exploração, mas com maior liberdade do agricultor de roça, criador de bode, galinha e porco, viver a vida no campo e exercer seu labor sobrevivente, agora restou somente a exploração pura, milhares de desterrados da roça em desesperança.

Contudo, ainda que reinventados certos modos, o jeito de viver em nosso interior segue cheio de impulsões animadoras quando o tempo fecha, o arvoredo que sobrou, balança, quando os terreiros, beiras de caminho e prados explodem em babugem.

Babugem: este minúsculo sinal de vida verde que irrompe após as primeiras águas; um relvado, qual tapete, rente ao chão, que faz a bicharada da criação babar de contentamento. São minúsculas e nativas gramíneas, leguminosas e outras espécies que anunciam o tempo melhor. Aliás, esse também é o tempo em que os “animais” escramuçam, festejam a vida que há de seguir.   

14/01/2017 - 09:24

Tinha que fazer uma chacina por semana”. “Matar mais”: esta manifestação plena de ódio é de um jovem, o Secretário da Juventude do PMDB – licenciado para ocupar o cargo de Secretário Nacional de Juventude, nomeado pelo governo, de fato, chefiado pelo Impostor da Republica. Um cargo de nível ministerial, vinculado ao Planalto. 

 

Ainda que um governo ilegítimo, alçado à chefia da nação por um golpe maquinado por forças degradadas do Judiciário e do Congresso, fortemente apoiadas politicamente na mídia oligárquica, essa fala emitida a propósito da matança em presídios brasileiros, revela a profundidade do estado de indigência mental-moral que assola parte expressiva do pensamento e atitude dos brasileiros nesta quadra da vida social em fluxos.

Chama-se Bruno Julio o autor dessa afirmação temerbrosa, que disse mais: “Eu sou meio coxinha sobre isso. Sou filho de polícia, né”. A observação com que tenta justificar essa forma de sentir e pensar, acrescenta ainda mais significados deletérios – se é possível – à citada manifestação, porque atribui à ambiência paterna-policial a filiação do jeito doentio de pensar.
“Cada ato político envolve a totalidade da história”: usemos essa chave de compreensão, concebida por M. M-Ponty, para continuar examinando o episódio.  

Por que um governo nomeia uma autoridade para tão relevante função com inclinações criminosas? E logo com a atribuição institucional-legal de dirigir as políticas públicas referidas à juventude? Um governo nomeia uma pessoa com esse perfil porque ele próprio, governo, assim pensa e quer agir. É fato. A nomeação desse moço de pensamento nazi é uma forma de agradecer a milhares ou milhões de jovens patrícios que apoiaram e apoiam o golpe que criou o poder delinquente que agora manda na burocracia da República, que cambaleia na inconsequência. 

O Brasil vive uma época de apressamento do seu regresso civilizatório, marca indelével da dinâmica de sua formação histórica. 

A fala desse desatinado, exprime, como ato político de grave potencial delitivo contra o ser humano, a “totalidade da história” das inspirações e formas de pensar prevalecentes de parte substantiva da elite que se fez dirigente na formação social brasileira em cinco séculos. 
Ouvi alguém lembrando em programa de rádio que “as prisões brasileiras de hoje guardam muitas semelhanças com as masmorras medievais-coloniais”, num debate em que outros pensam exatamente o contrário, afirmando que prisioneiros no Brasil “vivem como se fossem em hotéis de luxo pagos com o dinheiro do povo”. Há razões e contrarrazões nessas maneiras de expressar um fato grave que é o aprisionamento de alguém em face das condutas que assume para si num dado contexto. Daí ser razoável não pensar a questão em termos da dualidade excludente acima lembrada, mas sem fazer de conta que ela não é grave, sob pena de se cair, inconsequentes, pelo ralo das insoluções. 

A totalidade da formação social brasileira é profundamente marcada pela cultura da violência e da violência em modo de hediondez: a) o geno-etnocídio praticado sobre os ancestrais humanos desta atlântica margem e o destroçamento de sua ambiência natural-cultural – vidas roubadas; b) o sequestro afro e o exaurimento de milhões de corpos pelo trabalho escravo, em quatro séculos da formação brasileira – a humilhação pura e cruel, o estupro generalizado, a impiedade, vidas roubadas...; c) a sonegação, longamente adiada, e nunca devidamente aceito pelos que se fazem elite dominadora, do direito que todos têm de trabalhar em dignidade – vidas e força laboral roubadas; d) a anulação, na prática, do direito de ser livre, poder livremente fruir as possibilidades que este país generosamente dispõe a seus filhos – vida e liberdade roubadas por uma minoria infame e infamante. 

As cadeias brasileiras –a quarta população encarcerada do planeta – são o inferno sobre a terra preparado para os “pecadores” que as diversas pauperizações produziram. Os que prepararam esse inferno não vão para ele... Quem tem “nível superior” estar fora. Rico criminoso? Consiga ele ser ainda mais infame, delator, e tem prêmio na certa. 

Fonseca Neto

Fonseca Neto é advogado, historiador, escritor e professor. Membro da Academia Piauiense de Letras. Estudioso do tempo, Fonseca escreve sobre fatos históricos enquanto memória e realidade. Seus artigos formam um breviário do cotidiano piauiense e brasileiro, levando o leitor a uma verdadeira viagem no tempo.