Entre Linhas
28/03/2016 - 01:46
Estréia: 25/03/2016 Estréia: 25/03/2016

O TEMPO É UM BÁLSAMO PARA AS FERIDAS
 
Não é a primeira vez que Alceu Valença aventura-se pelas telas do cinema. Em 1981, foi a estrela de "Amanhecendo", do famigerado cineasta Jomard Muniz de Britto. Agora ele surge como diretor do longa "A Luneta do Tempo". O filme é um western onírico, centrado em dois eixos de conflito: Maria Bonita/Lampião e o circo mambembe.
No primeiro momento da obra ficamos imersos numa belíssima poesia visual-sonora, um verdadeiro bang-bang entre as tropas policiais de Getúlio Vargas e os cangaceiros no sertão, guiada pelas canções de Alceu, contribuindo para redefinir a paisagem sonora em torno da temática, já consagrada por "Corisco e Dadá" (1996), de Rosemberg Cariry.
É um filme onde a violência, honra e amor se cruzam com leveza, na busca pela investigação do microcosmo e do mistério que habitam no coração dos homens e mulheres nas profundezas do Brasil.
É preciso levar em consideração alguns aspectos que deixam o filme com alguns problemas de condução narrativa, pois o roteiro é bastante entrecortado, com muitas cenas inconclusas, abrindo para outras ações que não foram bem resolvidas anteriormente. Muitos fades são utilizados para demarcar passagens de tempo, deixando a história um pouco cansativa, o que provoca um certo cansaço no espectador, formando um quebra cabeça confuso na relação entre os personagens.
Confesso que me esforcei para sentir atração pelo elenco, mas a fragilidade dos atores em assumir seus personagens dificultou essa conexão, tornando suas performances pouco convincentes, o que cheguei a pensar que provavelmente poderiam ser artistas em começo de carreira, a não ser pela ótima atuação de nomes experientes como Hermila Guedes (Maria Bonita), Irandhir Santos (Lampião) e do próprio Alceu Valença (Velho Quiabo), que emociona no papel de palhaço, mas sua presença frequente no final do segundo ato do filme ficou desgastada pra mim.
Percebo que o fôlego do início vai perdendo força, mas Irandhir e Hermila conseguem segurar e manter o filme sintonizado até o fim, aberto e com uma sensação de incompletude.
O esforço de Alceu é válido, pois há 14 anos luta para realizar esse filme que, mesmo com falhas na sua concepção geral, é um belo presente aos nossos olhos, pois sua força musical é valiosa. Uma partitura afetiva e uma declaração de amor do cantor pelas lendas que movem o imaginário nordestino. O mais triste é ver a sala de cinema com apenas 10 pessoas...