Entre Linhas
07/02/2016 - 03:03
Cena de Boi Neon, 2015 Cena de Boi Neon, 2015

Minha primeira viagem na obra de Gabriel Mascaro foi com "A Onda Traz, o Vento Leva", depois curti sua instalação "Não é sobre sapatos" e agora sou surpreendido com "Boi Neon". Essas experiências me fazem repensar a noção de tempo e narrativa em processo no cinema brasileiro. Ele e Karim Ainouz são meus preferidos atualmente, pois as imagens são vistas enquanto investigação constante, explorando a paisagem brasileira fora das plataformas tradicionais e desapegado dos clichês que nos cansam diariamente. Boi Neon é um filme-processo que arrebenta com as fronteiras do gênero, uma poesia visual sobre a potência existente nas relações humanas, na vontade de alcançar os sonhos mais distantes. Uma peça rara que extrai todas as cores brilhosas da paisagem dura do Nordeste. A história de um vaqueiro que ama perfume e sonha ser estilista, enfrentando todos os machismos e contradições do mundo monótono e arrastado que sua profissão lhe marca. O tempo de Mascaro é o tempo da beleza, aquele tempo que não tem pressa. A gente apenas precisa olhar e interagir com o horizonte que abre em nosso coração.

02/02/2016 - 13:38
Fluxo no MASP Fluxo no MASP

Nas minhas travessias anuais por São Paulo, busco sempre mergulhar nas exposições de arte contemporânea em andamento. O ano de 2015 visitei Frida Khalo, Patricia Piccinni e Zé do Caixão, mas nada me encheu tanto os olhos como a exposição LEÓN FERRARI: ENTRE DITADURAS, que está em cartaz no MASP até 21/02/2016.

Já paquerava com ele há 3 anos nos livros de Arte, desde que entrei em contato pela primeira vez com A Civilização Ocidental e Cristã (1965), imagem-síntese da Guerra do Vietnã e nosso pesadelo mais emblemático em torno das atrocidades que cultivamos... em nome do ódio em trânsito permanente.

Na galeria do MASP podemos conhecer um conjunto de obras produzidas (cerca de oitenta peças, em sua maioria doadas pelo artista) por Ferrari (1920-2013) no período que viveu em São Paulo. Ele vem para o Brasil (1976) para escapar dos conflitos que seu país (Argentina) sofria com a repressão do Estado autoritário e volta para sua casa nos anos 80.

Dessa forma justifica-se o nome da exposição.

Considerado um dos artistas mais provocadores do mundo, León é uma referência dentro dos movimentos de vanguarda da América Latina com um rico repertório em obras produzidas em escultura (argila, madeira, arame, ferro) livros de artistas, instalação com garrafas, aviões, plumas, gorilas, gatos, ratos e baratas de plástico, torradeiras, liquidificadores e até animais vivos. Um símbolo da rebeldia latino-americana, ontem e hoje.

No catálogo, é possível entender que:

León Ferrari encontrava-se na contraditória situação de deixar uma ditadura por outra. A despeito do fato de que o processo de distensão já estava acontecendo no Brasil, ainda havia instâncias de repressão. Não obstante, Ferrari conseguiu mergulhar talvez mais profundamente em sua crítica de poder no Brasil, onde um grupo de artistas também se sentia compelido a discutir a estrutura de poder da ditadura militar, dando continuidade ao trabalho que ele havia começado no início da década de 60 (pp. 8-9).

Partindo daí o espectador circula pelos trabalhos em que León radicalizou seu olhar contra o autoritarismo americano, desde os mapas heliográficos, que sugerem as políticas de controle sobre o povo, cerceando todos os passos e à qualquer possibilidade de transbordamento.

As séries Heliografias (1980), Homens (1984) e Imagens (1989) retratam a frieza e a redução do corpo através dos mecanismos da mecanização dos movimentos, das relações, bem como a prescrição dos trajetos que os governados deveriam seguir, para não cair nas garras do instrumento repressor do Estado: O signo que representa o corpo, assim como a escala humana usada em plantas baixas é repetido muitas vezes para expressar os efeitos da padronização (pp. 09-10).

Corpos minúsculos, trajetórias vigiadas, mapas extraordinários controlados pelo “olho que tudo vê”, carros que vão e vem a lugar nenhum, como em Autopista del Sur (1981), as desconcertantes e singelas sequencias da Série Banheiro, onde homens em corpos uniformes concentram seus olhares para a autoridade máxima: a privada.

Outra série que compõe esse circuito imperdível é a Série Paraherejes (1986), realizada em fotocópia sobre papel. Uma das minhas favoritas. Para Roberto Jacoby, Paraherejes “remetem a uma polaridade tão conhecida que é quase trivial: a atemorizante noção de ‘pecado’ no Ocidente, oposta ao erotismo integrado dentro da cosmovisão oriental. A questão é, talvez, mais complexa; na tradição judaica-cristã, a culpa e o temor ao castigo devem ser considerados parte de uma forma perversa de prazer. O sadomasoquismo se torna evidente ao colocar algumas fantasias culturais junto de outras” (GIUNTA, 192).

Nossos olhos percorrem ao inesperado: imagens do catolicismo sendo invadidas pelo erótico oriental, no qual anjos, emblemas sagrados, juntamente com Cristo passam a conviver no mesmo plano com homens e mulheres fazendo sexo, explorando suas genitálias e posições mais ousadas no teto, debaixo da mesa, ao lado das santinhas, configurando o atrito entre o sagrado e o profano, o temor da culpa e a rebelião do prazer.

Fechando a sequência devastadora da exposição, León vem com toda sua fúria na Releitura da Bíblia. Usando fotocópias sobre papel e impressões sobre papel fotográfico, ele mistura a temática do erotismo oriental, totalitarismo, cenas de conflitos e corpos espalhados, armas de destruição em massa, tanques, aviões de guerra, bombas em diálogo com quadros e fotografias católicas.

Esse jogo violento é uma forma de trazer o obscurantismo contido na bíblia para o contemporâneo, pois não há nada mais atual em nossas memórias que o Vietnã, Holocausto, Hitler, os constantes bombardeios norte-americanos aos povos “sem liberdade”, o fanatismo religioso, que cega as chances de trocas culturais pacíficas.

Para Ferrari, as atrocidades mais recentes contém sua essência no Apocalipse, em São Lucas, São Mateus, Deuteronômio e nas Cruzadas medievais.

Releitura da Bíblia cruza o texto bíblico numa associação perversa, ligando os pontos entre a violência cristã e os gestos do Homem pós-moderno. É uma provocação resultante de uma constatação de Ferrari que:

Até os campos de concentração de Hitler desaparecem diante da eternidade da tortura do fogo desse campo de concentração para onde irá a maioria de toda a humanidade presente, passada e futura, por não amar Cristo. Nenhum massacre humano pode ser comparado aos massacres de jeová [...]. Em geral se faz uma análise da Igreja e se pensa que ela deformou o pensamento evangélico. Não está certo, inclusive, se deformou, foi para suavizá-lo (Entrevista à COLLAZO, Aberto, 1988. In: Giunta, p. 191).

Essas palavras resumem o que você pode conferir na mostra que o MASP está organizando desde outubro de 2015. León pulsa em nós o espírito do destronamento dos cânones, da desmistificação do sagrado, desmascarando a religião em seus negócios e jogos pelo poder, ridiculariza o olhar panóptico do Estado repressor e nos coloca uma questão fundamental: existe algo mais cruel que o próprio Homem?

07/01/2016 - 14:12
Trabalho gráfico lindo. Trabalho gráfico lindo.

A editora Draco lançou em novembro de 2015 um livro super atraente. Pela capa somos convidados a penetrar um universo de violência, brutalidade, misticismo e horror. Trata-se de “O Rei Amarelo”, organizado por Raphael Fernandes.

Reunindo um time de quatorze artistas visuais muito competentes, este trabalho é perverso.

Carlos Orsi faz a abertura situando o leitor sobre os caminhos que vamos percorrer. O livro que nos aguarda é uma homenagem ao escritor Robert W. Chambers (1865-1933), autor de “O Rei Amarelo”,  considerada um marco do gênero Terror da época, influenciando uma legião de autores como H. P. Lovecraft a Neil Gaiman e Stephen King.

Senti falta de mais informações sobre Robert Chambers, mas no processo de leitura das HQs compreendi que tal carência foi provavelmente intencional, a fim de que o leitor mais comprometido ampliasse seu interesse na investigação deste universo obscuro. É o que devemos fazer após a experiência, ler para ontem o livro original.

A proposta desta coletânea é trabalhar com adaptações dos contos de Robert numa perspectiva contemporânea, utilizando elementos essenciais do texto-base na trama dos quadrinhos, mesclada em tons de preto, branco e amarelo utilizando variadas técnicas de desenho, respeitando a particularidade dos artistas envolvidos.

Registro dois destaques que abalaram meu sono:

Foi assim que me surpreendi com “Fantasmas na Máquina”, de Pedro Pedrada, numa reflexão bem atual sobre a paranoia que envolve a vida de muitas pessoas quando o assunto é a exposição nas redes sociais e as violências cotidianas. Com traço perturbador, Pedro nos guia pelo fogo-cruzado de uma mulher amargurada, enterrada na dor, vítima dos seus demônios internos. A força da expressão contida neste trabalho merece atenção.

Podemos encontrar crueldade e expressionismo poético nas curvas de Lucas Chewie, em “A Boneca”, saindo do clima urbano de Pedro e migrando para o rural, provavelmente no século XIX, onde uma comunidade é aterrorizada por uma boneca amaldiçoada que devasta os sonhos de todos, destruindo tudo ao redor, a não ser que os olhos da garota recém nascida sejam ofertados a ela em troca do “paraíso”.

Durante toda a obra o leitor mergulha no terror/horror marcado pelo surrealismo, pois a base de inspiração dos roteiristas que contam as histórias está baseada no onírico, na crueldade que trafega nosso inconsciente (aqui veio a lembrança do cineasta Karim Hussaim, cineasta contemporâneo mestre na temática).

Percebemos que Raphael Fernandes deu total liberdade para os criadores invocarem seus demônios mais carniceiros, seus desejos mais doentios e o mais importante: possibilitou aos artistas o risco, o salto e originalidade. Quanto mais o quadrinho brasileiro se descoloniza e abre canais para iniciativas como “O Rei Amarelo”, a potência dos nossos artistas é revelada com intensidade.

“O Rei Amarelo” é um mergulho em um poço ocre onde a esperança de emergir para a realidade não passa de um sonho em duas cores”.

Dica de leitura urgente.

06/01/2016 - 22:13

A Panini Comics Brasil trouxe para nós em 2015 a segunda edição de DD, comandada por Frank Miller e Klaus Janson. Aqui podemos acompanhar a trajetória das HQs entre agosto de 1981 à maio de 1982. O processo de amadurecimento e redefinição que os autores constroem em Matt Murdock vai ganhando forma a partir da sua relação com Elektra e Mercenário. Alguns mistérios que ficaram em aberto no volume 1 são desvendados nesta edição, mais curta, mais intensa. Quando a gente pega o fôlego na leitura... Acaba! Será que vai sair uma próxima edição, levando em conta que o personagem ficou na mão dos caras até 1983? Oremos.

OBS: No final do encadernado tem uma entrevista gigante com Klaus e Frank, abrindo a caixa preta da Cozinha do Inferno, refletindo sobre a técnica e composição, bem como a relação que eles traçam entre quadrinhos e o espaço urbano. Tá massa. Um achado para os fãs do Demônio.

Entre Linhas

Ciclista, articulador audiovisual, Pesquisador independente de cinema brasileiro, Professor de História. Acredita que a paz em Gotham City é possível...