Entre Linhas
24/03/2016 - 03:36
Sala lotada Sala lotada

Saindo da sessão B.Vs.SM e já percebendo que a reverberação em relação ao filme está convergindo de forma negativa na fala da maioria dos críticos mais experientes. E não há exagero nisso. Houve uma grande expectativa no tal "confronto", mas o que vemos é uma colcha de retalhos. O filme apresenta sua introdução de modo atraente, conectando "origens", afim de retomar situações já conhecidas por nós e definindo seu argumento com segurança.
Acreditamos que o roteiro vai manter o fôlego inicial, mas infelizmente o espetáculo pirotécnico foi a prioridade (e nisso eu me diverti muito, vale muita a pena curtir as sequencias eletrizantes), no qual o enredo que estava amarrando o filme vai gradativamente se perdendo...
A bola da vez seria: "O que leva Batman a brigar com Superman?", mas Lex Luthor (não sabia se a chatice do personagem beirava ao clichê do "cientista maluco", enfim...) articula um plano meia-boca para irritar o homem de aço e a "tal" "luta épica" mal começa e mal acaba. Algumas situações são mal ordenadas na narrativa, causando alguns furos que enfraquecem nossas expectativas.
Vale destacar que a Mulher Maravilha conquistou a todos presentes, pois sua presença alimentou uma dinâmica que tinha se perdido no "duelo dos maiores gladiadores da história".
Os enlaces que definem a formação da "Liga da Justiça" talvez não agradem aos leitores de HQs, pela pressa em "justificar" a gênese do grupo.
Um filme longo, marcada por um arremate extenso (tive a sensação que eles não souberam "acabar" com o filme, e por isso o filme "acabou" várias vezes) e pouco atraente, não me mobilizou para uma possível continuação de peso.
Senti que o roteiro estava mal costurado. É uma impressão particular. Tomara que outras vozes se contraponham e iluminem pontos que não consegui observar.
 
 

18/03/2016 - 17:36

Na véspera de B.Vs.SM é muito importante retomar o trabalho de Lee Bermejo, que realizou uma bela experiência com "Noel", criando um lugar muito sensível na relação entre os dois personagens. Antes de ficarmos imersos na pirotecnia cinematográfica - que os não-leitores em HQ se divertem mais que a essência da narrativa - Bermejo foge dos clichês para trabalhar numa perspectiva mais subjetiva, abordando a tensa relação entre os dois com um olhar no cotidiano, nas entrelinhas, nos conflitos interiores, principalmente na consciência do Batman, desnudada e posta em questão...
Aqui, eles não são os Heróis, mas espectadores de uma vida que não pertence a eles. Nesta HQ, a possível prepotência ou "ar de superioridade" que os contaminam desaparece, para que ambos percebam a potência existente nas pessoas comuns, nas possibilidades que os homens ordinários têm na mudança por um mundo menos brutal. Superman torna-se um eixo para promover uma reflexão sobre o verdadeiro papel do super Herói. 
"A vida é uma batalha sem fim,. As trevas do mundo haviam forçado para dentro das sombras e A ÚNICA FORMA DE COMBATER OS MONSTROS ERA TORNAR-SE UM DELES.

15/03/2016 - 10:36
Arte de Odilon Moraes Arte de Odilon Moraes

O processo de releitura dos personagens criados por Maurício de Sousa é só alegria para os leitores da Mônica e do amplo universo criado por ele. A Companhia das Letras lançou ano passado a "Coleção Turma da Mônica", apresentando histórias clássicas realizadas por Maurício, agora repaginadas nos traços de ilustradores maravilhosos.
A proposta é reinventar a narrativa com um olhar contemporâneo, gerando um novo lugar de experiência para as travessuras da turminha. Com desenhos de Odilon Moraes, a gente pode reler a primeira historinha criada em maio/1970: "Mônica é Daltônica?". 
Esta coleção promete muita diversão e nostalgia. Respeitando o roteiro original, Odilon e Maurício refazem o enredo fora da linguagem das HQs, espalhando as palavras pelo livro, criando outra dinâmica de leitura e experimentando outros caminhos para contar o drama vivido pela Mônica, planejada pelo seu irmão Zé Luís, personagem que foi extinto pelo autor. 
Um trânsito harmônico entre HQ e literatura, nesta homenagem que sempre será bem vinda ao grupo de menin@s que vai nos encantar para sempre.

08/03/2016 - 01:06
Direção: Robert Eggers, 2015 Direção: Robert Eggers, 2015

Não precisamos situar William Friedkin como o diretor mais amado dos grandes filmes de terror norte-americanos, porque ele já é nossa referência, mas a partir daí venho compreendendo que o Terror contemporâneo está aos poucos ganhando contornos estéticos surpreendentes. Apesar das poucas surpresas desde The Blair Witch Project (1999), que considero um divisor de águas na narrativa do gênero (não podemos esquecer que o maldito italiano Ruggero Deodato foi fundamental no recurso "câmera-na-mão"), e das belas supresas como The Exorcism of Emily Rose (2005), de Scott Derrickson e do extremo-avassalador Subconscious Cruelty (1999/2000), do injustamente esquecido Karim Hussain, eis que sou acolhido com The Witch, dirigido por Robert Eggers. 
Citei esses trabalhos antes de falar de The Witch porque agora ele faz parte da lista dos meus favoritos, por não se curvar aos filmes caça-níquel que a indústria produz para agradar um público bobalhão, que adora rir e levar sustos programados de bonecas e objetos que se mexem por aí. 
Em The Witch, percebemos que a concepção do Mal está representada numa expressão mais exigente e pouco convencional, incorporando a natureza como uma totalidade, que faz da maldição um fenômeno que absorve todos os poros e não possibilita saídas ou espaços de conflito. O Mal está nas frutas, nos animais, na água, plantas, céu, terra, sangue e suas entranhas contaminam todo o servilismo cristão, que faz da culpa e do medo um território de cultivo para a semente plantada por Satã. O uso da paisagem está como um ponto-chave do filme, tornando-a um personagem a mais no enredo e não elemento decorativo. Aqui somos testemunhas de um mundo que vive a ausência de Deus. Homens, crianças e mulheres que imploram pela sua presença são ignorados. Não há oração, não existe amor. O Mal é paciente, frio e corrosivo. Ele sabe a hora de abocanhar a presa e dar a ela todo o poder necessário para a continuidade do legado. 
Temos uma fotografia que dialoga entre a palidez do horror e a poética barroca à Caravaggio, bem como uma trilha cortante bem pontuada na trama, The Witch pode ser considerado um filme necessário para repensar a linguagem do Terror psicólogo de boa qualidade. Minimalista/contido nos jogos performáticos, claustrofóbico, visceral e com um arranjo vocal penetrante, acredito que não veremos algo tão valioso por um bom tempo.

Entre Linhas

Ciclista, articulador audiovisual, Pesquisador independente de cinema brasileiro, Professor de História. Acredita que a paz em Gotham City é possível...